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Antes que seja tarde - Uma crônica sobre a pressa do amor

20/12/2013

Fico te olhando daqui, pentear o cabelo como quem molda uma escultura de barro e passeando pela casa procurando aquele par de sapatilhas que você sempre procura e nunca sabe onde está.Por que não guarda num lugar específico?, eu pergunto. É que eu gosto, você me explica, dizendo que a busca é sempre divertida. No fim, tudo que é divertido pra você me faz sorrir também. Então tudo bem. Fico te olhando aqui, agora, e pensando em quando isso tudo vai deixar de ser divertido. Porque, você sabe, um dia, a gente muda, enlouquece e resolve ir embora.
Será que você vai embora primeiro?
Assim como naquele dia de julho, chuvoso, sombrio, em que eu decidi ir à cafeteria pra me esquentar um pouco e te encontrei por lá. Assim, por acaso. Pensei em te convidar pra se esquentar um pouco comigo, porque estava um frio da porra. E, com certeza, você queria mais do que um café quente por ali. Tudo bem que eu não tinha lá essa certeza toda, porque você, com aquele teu jeito de olhar-sem-ver, nem me mirou muito. Nem se virou muito. Nem sorriu pra mim. Nem me trocou olhares daqueles dos filmes, sabe?
E eu fiquei ali fantasiando um futuro que poderia talvez não acontecer. Na verdade, não aconteceu – não do jeito que eu fantasiei. Melhor assim, você diz, zombando da breguice do meu amor. Pizzas às terças-feiras. Dormir juntos todos os dias até você cansar de mim e quase me expulsar da cama. Você acordando de madrugada e me acordando também, porque queria ir beber água e tem medo de ir sozinha até  cozinha. Cadê-minha-chave?, frase que você mais diz pra mim desde sempre. Eu não sabia teu nome, mas já sabia que você perdia as chaves. Chaves, celulares, sapatilhas, escova de cabelo, carteira e guarda-chuva.
A busca é divertida, você repete.
Aí, te olhando bater as pernas como quem está nervosa ou coisa assim, percebo em pequenos detalhes e lembranças o quanto sou feliz ao teu lado. Porque, dizem, felicidade mora nas pequenas coisas mesmo. Às vezes, não tão feliz no sentido de gargalhar. Ainda não fico confortável com aquele silêncio que dizem ser fruto da intimidade, mas sigo feliz porque sei que voltaremos aos risos em seguida. Até você parar para bater as pernas, olhar para os lados ou coçar as unhas.
E percebo – entre o hoje e o dia da cafeteria – aquela velha mania que minha avó dizia sobre paixões do dia-a-dia: quando o coração bate mais rápido é porque ele exige pressa. Porque amanhã pode ser tarde demais para encher o quarto dela com aqueles post-its dizendo o quanto os olhos dela são hipnotizantes. Ou para dançar com ela no meio do salão, mesmo sem saber dançar, só para tentar identificar quantas notas amadeiradas tem o perfume novo dela. Ou para varar a madrugada conversando com ela sobre um filme francês. Ou espanhol. Ou argentino. Ou para discar o número dela só pra dizer a quantas a saudade anda batendo. Porque, você sabe, e eu também sei: um dia, a gente muda, enlouquece e resolve ir embora.
Então corra, rapaz. Antes que seja tarde. Corra, rapaz, que a mulher ao teu lado também quer alguém para esquentá-la.

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