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Todo mundo tem um passado que condena

16/11/2012



Sim, antes de te conhecer, eu fiz uma visitinha ao puteiro e assumo: lá eu dancei igual ao Latino, lá eu bebi igual ao Mussum e, claro, lá eu meti como se eu fosse o Alexandre Frota. Ou acha que fui lá só pra pedir abraços às tantas bundas disponíveis na prateleira? O que mais quer saber sobre meu passado, hein? Quer que eu abra meu Facebook e aponte o dedo para todas as mulheres que um dia dormiram comigo? Tem certeza que aguentará o tranco? Promete que não fará o clássico biquinho de ódio? Jura mesmo que não passará o resto da semana em silêncio? Garante que não ficará o resto do mês abrindo a boca só pra dizer “ Não foi nada…” em tom de tapa?
Ok, você que pediu. Essa eu comi, essa eu comi, essa não, essa não, essa eu comi, essa eu comi, essa eu comi gostoso, brincadeira… Só deu tempo de encolher a cabeça e sentir aquele monte de cerâmica espatifando em mim. Você ficou louca? Acabou de quebrar um prato fundo na minha cara. Puta que a pariu, acho que vou precisar dar uns pontos. Você me leva no pronto-socorro? Como assim, “posso ir sozinho”? Como assim, “só foi um cortinho de nada”? Como assim, “frescura de homem”? Ok, vou lá costurar a testa e já volto, mas não esqueça que ainda estamos na letra “A” da lista, viu? E depois desta cutucada final, corri bem rápido para fora de casa, bati a porta e girei a chave umas doze vezes, até ter a certeza de que tinha trancado aquela furiosa assassina lá dentro, e eu, de dentro do elevador, ainda pude ouvir os berros e urros dela, aquela voz possuída pelo ciúme dizendo: “SEU FILHO DA PUTA!”.
Até hoje, carrego essa cicatriz bem no meio da testa. Tomei oito pontos e ainda tive que mentir para o pessoal do escritório, dizendo a eles que tive o azar de ser acertado por uma jaca cadente. E o que mais eu poderia falar? Que apanhei da patroa? Enfim, pior do que olhar a eterna marca sempre estampada em mim, é a sensação que sinto ao ver outras mulheres com a mesma psicose dessa minha ex, fêmeas que vivem agonizando, esperneando, sapateando em cima da calça e, principalmente, perdendo um imenso tempo sofrendo pelos atos que seus respectivos homens cometeram em um passado distante, antes mesmo deles imaginarem que um dia iriam conhecê-las.
Sério que vale a pena bater na pessoa que você ama pelos atos que ela cometeu no passado distante, enquanto ela vive tentando encher seu presente com poesia? E daí que ele passou o réveillon de 2001 galinhando e correndo atrás das mais variadas bocas? Ele nem te conhecia, não sabia que alguém assim tão foda existia, portando, como ele poderia privar-se daquilo que no momento o corpo dele pedia?
Hoje, agora, neste exato momento, ele está com você, anseia por você, tem fome de você e com certeza, não gostaria que você desperdiçasse o precioso tempo de vocês tentando achar crimes no passado dele ou procurando vestígios que só servirão como matéria prima para teses apocalípticas e brigas desnecessárias. Que tal aproveitarem agora esse presentão? O que acha de trocar esse biquinho por um sorrisão imenso e aceitar de uma vez que ele teve sim outras bocas antes da sua, que ele teve sim outros corpos antes do seu, que ele olhou fundo sim para outros olhos antes dos seus, mas que hoje é você que ele quer como mulher, como amante e como amiga. Hoje, é você que ele não quer decepcionar por nada nesse mundo. Hoje é com você que ele planeja a próxima virada de ano. Hoje, mais do que nunca, ele tem certeza de que está pronto para abrir mão de todas as outras mulheres e espera que, justamente, você não passe os dias todos pensando em quem ele foi, nem naquilo que ele fez antes de você surgir, mas que você consiga, de uma vez por todas, perceber que ele é um embriagado por seu cheiro desde o dia no qual cravou fundo sua âncora nesse peito tão aconchegante.
Quer um conselho? Hoje em dia, quase qualquer cidadão do planeta Terra com mais de 12 anos no RG, já possui algum antecedente amoroso – seja homem, mulher ou até mesmo bicho. Encare os fatos, se até o Justin Bieber tem uma biografia, qualquer um que entrar na sua vida provavelmente já virá com um kit de histórias devassas para contar. Cabe somente a você aceitar essa realidade, não deixando que qualquer passado natural inviabilize um futuro talvez lindo. Há também outra alternativa – tentar algo mais drástico, como a criação ilegal de bebês, cultivando recém-nascidos imaculados, em aquários blindados, até atingirem a idade suficiente para servirem como seu par. E então, qual vai ser? Antes de responder, se lembre que você também já borrou muito o batom antes de mesmo de conhecê-lo.

Ricardo Coiro

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