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A paixão morreu de overdose

11/08/2012

Éramos perdidamente para sempre, imortais enquanto trajávamos o couro daquela paixão supostamente eterna e acreditávamos que só a morte poderia desatar nosso laço, desviar nossos passos e criar óbito em nossos planos. Caminhávamos com a pele colada, como se andar de mãos dadas não fosse suficiente para alimentar nossa gana, famigerada ganância que havia entre nós. Não tínhamos rumo, nem queríamos mapas. Geralmente estávamos nus, como se nossos corpos não possuíssem farpas e nosso atrito, aos nossos átomos bastasse.
Nossas janelas vivam abertas, mas estávamos sempre ocupados demais para ver o que acontecia lá fora. Os carros, as pessoas, o planeta, nada disso fazia sentido em nossa órbita egoísta. Não ouvíamos a campainha, não ligávamos o rádio, vendemos a nossa televisão, mas estávamos sempre atentos ao silêncio salivante de nossas línguas. Assistíamos ao dançar de nossos lábios e esse era nosso melhor programa, talvez o único. Alimentávamo-nos de nossas bocas, mantínhamos a pressão alta lambendo o resíduo de sal presente em nosso suor. Suávamos juntos até adormecer.
Nós fomos tudo e a galáxia um dia foi só nossa. Eu era ela e vice-versa. Ela era meu verso e nunca minha vice. Éramos juntos nosso próprio vício e assim, intensamente, perdidamente, consumimos todo fôlego inabalável que havia entre nós. Tragamos nossos oxigênios sem medo da potencial asfixia, cheiramos nossos perfumes até roubá-los da pele e depois de muitas invasões afiadas em nossas veias, nossa paixão estrebuchou, morreu de overdose bem ali, diante de nossa cara incrédula. Nossos corações pararam de bater, pelos menos por nós. Sufocamos e sabíamos que precisávamos de novos ares.Da última vez que a vi, guardamos nosso “Para Sempre” em caixas de papelão propositalmente esquecidas na minha última mudança, nos despedimos com um beijo distante do rosto, seguido de uma mudez que certamente desejava boa sorte e mais nada. Fomos juntos até o elevador, esperamos no escuro, quietos e sem cruzar olhares. O elevador chegou e nele ela entrou para sempre, sem ao menos olhar para trás. Da janela do apartamento ainda pude vê-la dentro do carro, desabando em lágrimas, convulsionando em soluços incontroláveis. Fumei um cigarro enquanto ela afastava-se e encolhia rápido, segui aquele automóvel vermelho com os olhos mareados, mas logo não pude mais vê-lo. O cigarro acabou e nossa paixão também.

Ricardo Coiro

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