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Somos todos caçadores de pipas

10/03/2012

A grande maioria das pessoas já empinou uma pipa na vida. Naquele domingo de sol, com um monte de crianças da sua idade correndo extasiadas pelo parque, seu pai te permitia escolher a pipa que você quisesse, da cor, jeito, formato, leveza que mais se identificasse com você, e então a comprava. E você saia correndo com ela pelos gramados ainda sem saber bem o que fazer e como fazer aquilo que parecia tão fácil aos olhos dos outros. Até que alguém vinha, amarrava a linha no seu dedinho delicadamente e te ensinava como um objeto de papel poderia flutuar no céu.
Aí a gente cresce. Cresce, estuda, trabalha, viaja e começa a empinar pipas pelo mundo afora, como se ainda tivéssemos 10 anos e um banco da praça nos esperando quando o jogo ficasse enfadonho. Um jogo de ganhar e perder que não se aprende com tanta facilidade.
Amar hoje em dia é como empinar uma pipa. Por vezes se afrouxa a linha, por vezes a esticamos ainda mais pra analisar o quão longe ela consegue chegar. Mas sempre com a certeza que a pontinha desgastada da linha ainda se prende ao indicador da mão direita com a mesma força de quando era uma linha nova, recém comprada na papelaria. Ás vezes uma rajada de vento mais brusca ou uma corrente de ar mais abrupta abala o equilíbrio do movimento conseguido com tanto esforço. A pipa sobe, desce, faz que vai cair, faz que vai voar pra longe, perde o rumo, a direção, o norteio do balanço…perde a sustentação. E o que de fato acontece, é que nós, pequenas e inocentes crianças, com a sede e o alvoroço de continuar na brincadeira, com a teimosia de um garoto (a) que não sabe perder, fazemos esforços inimagináveis para manter o brinquedo no ar. Corremos daqui, dali, acolá. Amarramos um nó tão apertado no dedo, por medo do brinquedo se soltar e sumir no mundo, que chega a doer, a machucar, a ferir o dedo, o ego, a alma juvenil que no fundo tem mais gosto pela brincadeira, que pelo brinquedo.
O resultado é um só: dedinhos esmagados, cheios de edemas e muito machucados. Não passamos de ingênuos e inexperientes caçadores de pipas. Grandes e tolos caçadores de amores. Seja por carência, por baixa estima, por cicatrizes ainda não curadas, aceitamos entrar numa brincadeira, num jogo de estica e puxa cujo único fim possível é a solidão. Nenhuma pipa se mantém nos céus infinitamente. Quando a brisa diminui, quando o calor dos corpos se abranda, quando chove, quando as lágrimas começam a não serem contidas, a pipa cai no chão e a eufórica brincadeira só consegue recomeçar quando o tempo estiver claro e ensolarado de novo, ou no instante em que a gente se depara com uma pipa nova dando sopa por ai. Caso contrário, o pedaço de papel que já apresentou tanta vida um dia, perde todas as cores e se torna apenas um emaranhado de fios, cores e dores no meio da paisagem inerte.
Mais importante do que saber como e quando iniciar a brincadeira é saber a hora de parar. O momento de respeitar sua exaustão, de esperar um céu mais límpido e uma brisa mais favorável. É preciso se permitir por vezes uma estiagem para que a primavera possa florescer de novo.
Não acho que a gente precise parar de brincar. Contudo, o jogo deve ser saudável e prazeroso para o criador e a criatura. Se a pipa tão almejada alçar vôos maiores do que você consegue acompanhar, a deixe ir. Se a linha apertar demais, desate os nós e afrouxe as voltas. Se mesmo com tantas tentativas o vôo não se sustentar, aguarde um corredor de vento mais propício. Se o universo colaborar e a pipa se mantiver no ar, aproveite como se não houvesse amanhã. Se nada disso acontecer…o banco da praça, aquele da infância, talvez ainda esteja lá para servir de amparo, aconchego e ombro. E como dizia um grande escritor da literatura brasileira: o que tem que ser, tem MUITA força!
O mundo gira e mais dia, menos dia, o universo traz pra você a pipa que você tanto esperava. Aquela que se sustenta sozinha, sem nós ou amarras e que nunca voa pra longe a menos que a brisa leve ambos, “brincante” e brinquedo, para a mesma direção…”

Danielle Daian

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