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Segundas chances não vêm com lubrificante

10/03/2012


Sou pega desprevenida, ainda no zíper da calça. Com creme entre mãos e pernas. O celular piscando. É ele. Reaparecendo. Abocanhando as bordas. Vem se espalhando por frestas. Rejuntando brechas. Unhando fendas e poros. Derrama-se por minhas lacunas. Exibido, como fogos de artifício. Assovia sem escorregar nas notas. Cantando sua vontade nas entrelinhas. Quer voltar a ser meu tema. Eu recuo. A última noite ao lado dele ainda é ontem. Ele vestido de cordeiro. Ele mercadoria falsa.

Flores virtuais não dissipam mágoas. Mágoa não é vela de aniversário que você apaga com sopro e pedido. Como uma reconciliação se ergue por cima disso? Nunca assinei esse tipo de acordo. Não costumo olhar pra trás. É retrocesso. Quando dou a partida, é pra não voltar ao mesmo ponto. Não é só tirar do pause. Mas nunca pensei em pontos interrompidos como o nosso. Cicatrizes marcam. Chegam a doer quando chove.
Se ele abrisse portas e afastasse cadeiras e sentasse no sofá e ficássemos no portão e me levasse ao cinema e me comprasse pipoca ainda não entenderia de mim. Não é sobre clichês traduzindo coisas vazias.
Então ele sinaliza ruidoso. Estende faixas. Escreve meu nome em fumaça. Tudo impressiona, mas voltar exige esforço. Segundas chances não vêm com lubrificante. É preciso tato, dedo, língua. Desperdiçar saliva. É preciso firmeza e força. O meu capítulo é o próximo. É mais profundo. É quando você se entrega a um livro. Grifa seus trechos sem pedir licença. Interrompe porque tem sono, não preguiça. Na conquista da última página, ainda tem fome.
Mas tudo pode ser só assombração invadindo a minha cabeça. As minhocas do subconsciente me narrando uma história louca de recomeço, enquanto espero o condicionador fazer efeito no banho. Eu acordando três ruas depois. Ele nunca mais piscando no celular, porque hoje foi só engano. O indicador um pouco mais distraído deslizando no visor. A análise de uma chance que não foi pedida.

Priscila Nicolielo

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