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Quem tira a calcinha, não põe silicone

27/01/2012


Não que eu seja uma vagabundinha. Pelo contrário, costumo ser bastante tímida quando um homem se aproxima pra me pedir cigarro ou fogo. Eu acho essa abordagem meio sexual e tenho uma mania chata de ficar vermelha, sempre que eles vêm com uma dessas. Eu fico com vontade de olhar pro zíper da calça dele e, quando percebo que estou olhando, sempre esbarro num copo ou o queimo com meu cigarro. Sei lá, essa pergunta me deixa bastante sem graça.
Mesmo tímida, eu tenho lá as minhas táticas de sedução. Aquela baboseira de olhar e sorrir e jogar o cabelo, que me faz sentir meio boba na maioria das vezes. Acontece que algumas mulheres têm trapaceado. Sabe, se você é do tipo branquinha, você tem que saber aproveitar esse detalhe . Não é uma câmara de bronzeamento artificial que vai resolver os seus problemas. Isso é jogar sujo. Você acaba entrando numa categoria que não te pertence e com um repertório extra. Porque todo mundo tem um charminho escondido. Ninguém precisa ser igual a uma Paniquete pra brilhar. Então quando na semana passada a Estelinha apareceu com os peitos gigantescos, eu fiquei meio chateada. O apelido dela era Teté Tábua no bairro de tão pequenos que eram, mas ela não precisava apelar. Era linda do outro jeito. E podia correr no meio da rua, sem ninguém fazer a piada das melancias pra cima e pra baixo.
Fazia muito tempo que a gente não se via e então ela me chamou pruma cerveja. Na primeira garrafa já a Estelinha desabafou – “Nunca fui tão paquerada, mulher”. Eu perguntei se era por causa dos peitões, já sabendo que era, não sou muito burra pra essas coisas, apesar de tímida de vez em quando, você sabe. Ela disse que “Sim, mulher, sim, eles olham e perdem a concentração, você devia colocar peitos também”. Achei a Estelinha meio deslumbrada com o seu novo apelo erótico. Eu já ouvi uma história parecida uma vez. Conheci uma drag queen que também tinha colocado peitos e me disse  -“Racha, os bofes vêm com tudo, não fico sozinha nem em noite de segunda-feira.” Eu achei bom pra drag, mas confesso que não ia estar lá muito feliz se tivesse que sair com um cara em plena segunda-feira. Poxa, as noites de segunda são super bacanas pra você ficar bebendo sozinha na internet. Fica todo mundo online no facebook. É demais. Eu me divirto à beça.

Eu nunca tive coragem de fazer uma operação. Morro de medo de médicos e e agulhas e linhas. Uma vez, quando era mais nova, quis operar as orelhas. Você não precisa disfarçar ou negar, tenho orelhas de abano. A vida toda me chamaram de Dani Dumbo. Não te parece nome de atriz pornô? Ouvi mais Dani Dumbo na vida do que Toca Raul numa balada. Chorava pelo menos uma vez por semana. Bom, se eu não entrei na faca para me livrar desse apelido, você acha que eu teria coragem pra enxertar peito? Por que pagar dez mil reais pra colocar silicone sendo que sair sem calcinha têm o mesmo efeito? Não que eu seja vagabundinha, repito. Mas é que de vez em quando a gente precisa ser do tipo de garota que sai sem calcinha, você entende? Principalmente se o cara não dá nada pra você e você sabe disso. Olha pra mim. Além das orelhas, não tiro esses brincos de perólas por nada. É meio broxante, eu sei. E todas as peças de roupas que uso têm flores e corações e lacinhos. Você pode tá achando que é um negócio bem infantil e recatado e tudo. Eu até concordo. Mas não se você tá sem calcinha. A postura é outra. É que, às vezes, beleza não basta. Vai por mim. Conhecimento não basta. Educação, nem se fale. Nossos malabarismos verbais chegam ao receptor tão sonolentos que. Isso tudo me derruba, vou te dizer. Você é a mais popular da sua turma, mas não quando sai com alguém.
O fato é que - Eu não me sinto uma mulher sexy, preciso confessar. Eu tenho a impressão de que os homens me veem mesmo como aquela garota sem graça, pra namorar. E imagine isso nos tempos de hoje, em que as pessoas não namoram mais. Pra que eu sirvo então? Eu sei, pode ser uma crise. Meio que não estou encontrando o meu papel na Terra. Mas eu também preciso me sentir atraente. E, ainda bem, descobri essa história da calcinha. Mas, olha, não vai pensar que eu viva sem calcinha ou tire pra todo mundo. Eu não sou uma vagabundinha. É só de vez em quando. Naquelas situações que me deixam desconfortável. Por exemplo, sair com uma homem mais rico ou mais inteligente ou ir a uma entrevista de emprego. Eu chego a suar de tão tensa. É meio ridículo perceberem que você tá nervosa com a presença de alguém. Eu acho. Costumo ficar com o buço suado. É muito humilhante. Você pode estar achando isso uma conversa muito sincera, mas eu precisava te dar esse toque. Às vezes você me parece tão. Não é beata a palavra. Nem assexuada. É tipo. Ah, vai lá no espelho! Põe um desses meus vestidos de babados e se olha.Frágil, né? Agora tira essa tanguinha e se olha de novo. Não te dá segurança? Você até sorriu que nem safada, eu percebi.

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