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Não é saudade, é tormento

24/01/2012

Você cospe charme. Você rela em mim dum jeito. Você mostra os dentes pra fotografias que finjo ignorar. Você diz e diz o quanto eu isso ou aquilo. Você não pontua as frases e isso me atormenta. Você ajeita a gola da camiseta como se sufocado. Por mim. Porque eu sou dessas que. Comigo nada é mais ou menos. Você se desculpa. Seu olhar tem mira. Seu olhar é tática e mel. Eu posso te esculpir em mais linhas. Um parágrafo sobre a maneira como você anda. Desajeitado e leve. Mas isso te devolveria a um palco. E enjoei de ser platéia. O foco não te persegue mais quando você chega e eu já estou. E também essas noites sonhei outras histórias. Olhei pra um isqueiro e até me esqueci que você tem fumado. Não pensei em te escrever durante um bar, na companhia de celular e amigos. Como se me tivessem devolvido, depois de mil madrugadas. Como se a embriaguez tivesse pedido as contas e, hoje, nem ressaca. Nem fome. Nem saudade com gosto de cabo de guarda-chuva. Mas o jeito como suas mãos me cercam, apesar de tudo. E o jeito como ficamos abraçados naquela manhã depois de. E o jeito como você se despede, a única coisa que você pontua. E como eu fico quando tudo acaba. Quando a porta bate. E eu sobrevivo. Mas falar em sobrevivência te finca num altar. Tapo o ouvido. Aqui o seu nome não entra. E a foto que encontro de castigo em alguma caixa de sapatos velha. E sempre aparece alguém dizendo que você estava e fez e falou. Eu mando pra debaixo do tapete. E vem outro porta-voz das suas frases sem pontos. Você pausa ou pergunta? Exclama ou explica? Você não recorre à histeria das letras maiúsculas e isso pra mim é insensibilidade. É desprezo pelo que me escreve. Eu nunca entendi. Mas agora é daquelas matérias que pulo os olhos. Daquelas estrelas apagadas que você mal nota quando é noite limpa. E então você aparece no meu telefone. E atender seria assumir a sua importância. Deixo tocar. Mas a sua voz rouca e sussurrada. E um emaranhado de desdém e vulnerabilidade atacando o meu estômago. Você pretende morrer quando? A vida existe apesar de nós. O mundo também sorri quando você falta. Eu descobri que há tristeza por outras causas. Que dá pra decorar a casa, sem pensar por que nunca ocupamos um porta-retrato. Que eu consigo visitar aquela rua por onde onde passávamos, sem enquadrar a nossa janela. Acontece que o jeito como você esfrega os pés nos meus pode trincar o meu disfarce. Mas relatar tudo isso seria.

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